Amor e Obsessão

Trabalhando na revisão do novo livro: Amor & Obsessão. Não vejo a hora de dividir esta historia com todos leitores.

“Alguém que conheci ainda muito jovem. Amor de juventude, sabe? Então… ele era galanteador, bastante sedutor, e todas as moças da minha época o adoravam. Eu fiquei muito surpresa, quando descobri que ele estava apaixonado por mim. Me senti a melhor de todas, sabe? Ter o rapaz mais cobiçado do colégio, e talvez de todo o bairro, enamorado de mim era algo surreal. Infelizmente, e quero frisar isso bem, infelizmente — disse pausadamente — eu me apaixonei por ele. Fui contra o conselho dos meus pais e de todos os meus amigos. Todos que me amavam tentaram me alertar de que algo estava muito errado. Ele se demonstrara muito ciumento. Tinha até ciúmes do tempo que eu passava com a minha família. Dos amigos, então, o cíumes era pior ainda! Achava que aquele ciúmes todo era sinal de amor, sinal de que ele me amava e me queria bem. Mais uma vez, contra todos os que me amavam, eu fui adiante com os planos de casamento. Nos casamos e fomos morar em uma casa bem simples, aqui mesmo no bairro da Mooca. Ele não queria que eu trabalhasse, inventava mil desculpas. Dizia que ele era o homem da casa e ele é quem deveria me sustentar e arcar com as despesas, dizia também que tinha o fato de eu não ser capaz de realizar nenhuma atividade profissional… me julgava incapaz, acredita?
— Mas você é tão inteligente — Zahra interrompeu — com certeza é capaz de realizar muitas profissões e ofícios…
Silvia bateu no peito e respondeu:
— Sim, claro que sou capaz. Porém esta é a mente de um controlador, a mente de um homem obsessivo. Ele foi aos poucos, desde o começo me alienando. Primeiro, com suas crises de ciúmes, ele foi me afastando dos meus amigos queridos e até de alguns familiares. Meus amigos não queriam estar por perto, pois ele sempre os maltratava. Já dos meus pais, fui eu quem fui me afastando. Tinha vergonha das cenas de briga e baixaria que ele fazia e, para evitar colocar meus pais em tal situação, fui aos poucos me afastando deles. Depois que eu fiquei totalmente sozinha com ele, sem muitas pessoas ao meu redor para me ajudar, ou me aconselhar, ele, então, começou a violência…
— Física? — perguntou Zahra assustada — por acaso ele começou a te bater?
— Não… a violência não era física mas, sim, psicológica. As palavras são muito poderosas. Elas podem tanto causar o bem como também ferir, e muito, alguém. Ele começou por tecer comentários do tipo: “Você não é capaz de exercer um ofício” ou “Você é burra!”. Logo depois vieram comentários mais pesados do tipo: “Você não serve para nada e além de tudo está agora ficando feia”. Todos os dias, eram comentários e mais comentários que me colocavam para baixo. Ele dizia que meus objetivos nunca poderiam ser realizados porque eu não era inteligente. Sua intenção era minar a minha autoestima cada vez mais até que eu perdesse totalmente o amor-próprio.
Zahra estava prestando muita atenção ao que Silvia lhe dizia. Em sua cabeça, era como se passasse um filme, que narrava exatamente as cenas vividas com seu marido Farzin. Silvia continuou:
— Aos poucos, sem perceber, fui perdendo minha identidade. Passei a viver com medo de absolutamente tudo. Depois de tanto ouvir que eu não era capaz, ouvir que eu era feia e que ele estava comigo por piedade, pois nenhum outro homem nunca olharia para mim, depois de tudo isso e várias outras cenas de abuso psicológico, fui me sentindo acoada. Perdi totalmente o amor-próprio, e era exatamente o que ele queria.

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